Caro nerd branco, imagine apenas poder brincar de ser o Lanterna Verde ou o marciano, pois todas as suas outras referências de herói são diferentes de você. Caro rapaz branco do ônibus, pense em como deve ser envergonhante ser revistado por um policial por que ele achou que você está carregando algo. Cara garota branca, você realmente acha que pegarem no seu cabelo e chamá-lo de “bonitinho”, é legal? Enfim, cara gente branca, não tem como entenderem.

Principalmente se o uso de “cara gente branca” o ofendeu. Se pensa que o título e temática da série original da Netflix é um exemplo perfeito de como ninguém está livre de ser racista, que esta frase é apenas mais uma piada que pode ferir alguém com um chamado “racismo inverso”, está enganado.

Isso por que essas três palavras juntas são uma lembrança de que um dia já se referiram a negros e brancos como “os meus” e “os seus”. Sobre como os anos passaram, mas ainda existe um tipo de produção cinematográfica feita apenas para negros, como ainda generalizam por causa da cor da pele e sobre “racismo” ainda ser um problema. Em resumo, é uma alegoria, um escárnio a sociedade absurda em que estamos.

E tanto o filme de mesmo nome quanto a série trabalham com esses absurdos. Garotos bobos que tem a ideia de fazer uma festa repleta de blackface e esteriótipos culturais, uma revista que faz sátiras racistas. Cada situação é um pequeno “wtf” em seu contexto, mas ao mesmo tempo, tudo é assustadoramente plausível.

Ao longo de dez episódios, conhecemos Sam e através de seus olhos e de seu grupo, também entendemos o pior e o melhor do movimento negro. Vemos palavras de ódio de ambos os lados, atitudes feitas de cabeça quente, discursos difíceis de engolir, mas que são a pura verdade. A parte ruim é sobre como o filme não fez o devido sucesso que merecia e pelo o que está parecendo, a série vai seguir o mesmo caminho.

E isso não se deve ao título que é um “racismo reverso” – diga-se de passagem que tal conceito não existe – para alguns ou todo o boicote que tentaram fazer. Mas pelo simples fato que a sociedade não está pronta, ou melhor, não está a fim de ver histórias com personagens negros.

É como aquele amigo seu que nunca viu Luke Cage, mas tem o prazer em dizer que “é a pior série de heróis”; ou aquele que nem sabe do que se trata The Get Down, mas insiste em dizer que “deve ser chata”; ou até mesmo você que deve estar acostumado a ver negros traficantes no cinema e TV.

Mas isso está mudando. Barry Jenkins ganhou seu espaço no seleto grupo de ganhadores do Oscar com Moonlight e junto, marcou a série Cara Gente Branca com o quinto episódio, que é capaz de fazer o público chorar assim como seu filme. Viola Davis é mais um grande exemplo e a lista apenas aumenta com Solange Knowles, Octavia Spencer, Jannele Monáe. São grandes nomes que fizeram grandes coisas para chegarem nesse ponto.

Agora, relembrem do garoto que é o Lanterna Verde no recreio e atribua cada um de seus desafios a essas atrizes. Pense em todo o racismo que elas sofreram na escola; em todas as vezes que foram chamadas de feias pela cor de suas peles; em que lhe disseram que não seriam nada diferente do que seus pais foram e que “ser famoso” era um sonho, assim como ser uma princesa.

O público passou anos ignorando essas figuras e agora, não conseguem ficar sem. Como já foi dito, tudo está mudando e quem sabe, possam estar dispostos a abraçarem esses novos talentos. Como Logan Browning, que brilha em cada episódio e faz falta quando fica muito tempo fora, ou Marque Richardson que fez um trabalho excepcional no filme e na série.

Isso não é uma questão de “mimimi” ou vitimismo, ou de como “sempre trazem os 400 anos de escravidão para a discussão”. É a realidade. Nela, ninguém está disposto a usar os erros do passado para fazer os acertos do futuro, mas em contra partida, todos estão dispostos a viver em mundo livre de discussões, em que uma piada deve ser vista apenas como isso, independente se alguém saiu ferido com ela. Então, cara gente branca, está na hora de fazer a diferença. Pode começar indo ver Cara Gente Branca que já está disponível na Netflix.