Rostos angelicais, corpos esculturais. Deuses e heróis, postos lados a lado em uma beleza morta e congelada para que todos a contemplem silenciosamente. Peles brancas e macias. Tão frias ao toque quanto o silêncio que reina entre Elio e Oliver, o casal gay e protagonista de Call Me By Your Name, filme que está na lista de queridinhos para a cerimônia do Oscar.

À primeira vista, isso não é óbvio, mas essa realidade da vida do casal está nas entrelinhas dos primeiros minutos do filme. As esculturas romanas, belas por fora e vazias por dentro, caracterizam diversas relações do filme, desde o amor lúdico do casal até a própria estrutura do longa, que opta por deixar a intimidade entre os dois ser mostrada através de gestos e ações, mas poucas palavras.

Isso fica claro desde o pouco caso de Elio sobre o “forasteiro” até o seu repentino interesse pelos shorts vermelhos do homem. Da cena do pêssego até os momentos finais em que o espectador tem a oportunidade de explorar cada segundo dos sentimentos de Elio e então decidir se se compadece com a história ou se acredita ter visto duas horas do famoso clichê romântico LGBT.

O que não seria ruim caso Call Me By Your Name fosse um filme da década de 80, uma época em que tal história estaria derrubando muros e mostrando que ser branco e gay talvez não seja um problema. Uma prova disso é como Elio vive em uma bolha social em que seus pais fecham os olhos para suas preferências sexuais, em que seus amigos não parecem se importar sobre quem ele leva para a cama e até mesmo suas empregadas não falam, nem o olham torto devido aos seus comportamentos.

No fundo disso tudo, quem parece ter “ranço” de Elio é o próprio garoto. Que confunde os sentimentos e as suas palavras, mostrando que de infantil não é apenas o seu amor por Oliver, mas ele também. A sexualidade aqui não é empecilho, mas na realidade, um inconveniente para amar e ser amado, uma desculpa para fazer sexo.

É a fruta mordida que se torna lixo. Como todas as mulheres representadas no longa. Buracos vazios de pensar e personalidade, feitas para saciar o desejo que Oliver e Elio sentem um pelo outro, mas que também sentem medo de consumar, realizar. Essa é a bissexualidade dos dois. É o desejo que não é dito, mas interpretado com os olhares quentes de Armie Hammer e Timothée Chalamet. Mas tão silencioso que os momentos longos e a sós entre os dois terminam com pouca sensibilidade e muito sexo.

Algo que não é necessariamente ruim ou um motivo para se odiar a história, mas a direção de Luca Guadagino deixa a desejar até nesses momentos e a sensualidade é deixada de lado para mostrar o “escatológico”, em outras palavras, tenta atiçar aquela famosa curiosidade do homem hétero sobre como dois homens conseguem fazer sexo. Ironicamente, quem se destaca mesmo na produção é o pai de Elio, interpretado por Michael Stuhlbarg, nos poucos minutos que lhe são dados para brilhar.

E tudo isso depois de produções que tentam explorar outras visões, consequências e desafios em ser LGBT, algumas mais profundas e caóticas como Thelma (2017), outras diluídas em maiores complexidades, como Moonlight (2016). No fim das contas, aqui retornamos as origens do cinema gay, apresentando uma utopia em que o maior plot twist é saber qual será a próxima peculiaridade mostrada na cama do casal.

Mesmo com sua fotografia quente, com o calor da Itália estalando telhas e fazendo corpos nus soarem de prazer, no fim das contas, Call Me By Your Name é como a estátua resgatada de Vênus. Bela e oca, nascendo das bolhas do mar. Nada além de um prazer visual momentâneo. Nada além do estereótipo gay que já conhecemos.